sábado, 7 de março de 2009

Infância-I

Poucos brinquedos, algumas bonecas quebradas, e folhas, muitas folhas de caderno jogadas no carpete de veludo da vovó.É assim, que lembro de mim, quando ouço a palavra infância.Não vou fazer como muitos, contar como foi a meninice, e das coisas que eu gostava de fazer, e de brincar.Vou apenas, descrever oque eu sentia, oque me fazia sentir, e pra quem eu passava os meus sentimentos.
Aos sete anos, eu era uma criança magra, eu disse magra, não magrela.Tinha muitos hematomas, por dentro, e por fora.Achava que as pessoas não evidenciavam sentimentos, isto fazia com que eu pensasse sempre em nunca ser uma pessoa fria e calculista.Rodiava os adultos, porque achava interessante, as notícias que eles ficavam ouvindo e comentando, naquele velho rádio de madeira, que hoje...já não me pertence mais.Falava pouco, porém, tudo que pensava, achava que tinha necessidade de anotar.
Nunca me fusionei com as outras crianças, talvez por medo, vergonha ou até mesmo por sempre estar à frente do meu tempo.Diante todas as minhas anotações, eu percebia uma palavra, diante as milhões que havia escrito: dúvida!Minhas dúvidas eram tantas, que ao ouvir meu avô pronunciar 'ser ou não ser', eu tinha vontade de chorar, as vezes até chorava.Ouve um tempo, que eu não sabia controlar as minhas emoções, e sentia a falta de um amigo.Mas pensava:'- pra quê?'Pra depois ele me humilhar, me magoar, e esquecer das coisas importantes pra mim?É, amigo era uma coisa necessária pra mim, porém desnecessária em algumas situações, se é que vocês me compreendem.
Nunca falo sobre minha infância pelo motivo de dor, dor de explicar meus sentimentos, que por sinal, estão cada dia mais doloridos.Não vejo diferença da minha infância, até hoje, nos meus trinta anos.Continuo cheia de dúvidas, e querendo fugir da dor de explicar, explicar verbalmente os meus dramas pessoais.

domingo, 1 de março de 2009

repudiar


Tenho trinta anos, não sei exatamente oque quero.Se tivesse dezoito, garanto que também não saberia, se tivesse oitenta, também não.Vivo em estado incessante, já viví em estado volúvel, mas isto faz um certo tempo, confesso.Desde a década de setenta, tenho mesmo caderno de lástimas, com as exatas palavras labirínticas, e situações árduas, situações estas, que eu não soube administrar na maioria das vezes.


O tempo passa, e não passa pra mim, repudio quando passa rápido demais, repudio quando demora pra passar.Odeio ver anoitecer, odeio saber que já amanheceu, e pensar: Lá se foi mais um, começou outro, e eu não pretendo e também não tenho vontade de mudar de estado.Gosto de pisar no tapete, e sentir os estilhaços de vidro, que destruí na noite passada.Gosto de perceber que entendo que não estou bem, mas consigo dissimular muito bem.Gosto de tragar o meu cigarro, sozinha, e deixar cair as cinzas sobre os livros, como se fossem pedaços de mim, que ficam por aí.Gosto de beijá-lo, mas abomino amá-lo, tendo os motivos mais concretos do mundo para exemplificar isto.


Tenho trinta anos, vinte de lamúria, e talvez dez de infância, que mesmo tardia, eu posso garantir que tive.Destes trinta anos, ouví o tempo todo, tagalerices ao meu respeito.Sempre pressagiaram de dizer, dizer, mas esqueceram de dizer das coisas que eu preciso, não das que devo largar.A verdade, é que eu preciso de mais compaixão, e menos silêncio exterior.